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Manifesto Ubuntu

Esta Declaração Ubuntu “Uma só família humana” está aberta a todos os que com ela se identificam.

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Uma só família humana

Somos braços da mesma árvore.

Mandela divertia-se com o sentido literal das árvores genealógicas ocidentais. Na sua visão, somos todos braços da mesma grande árvore. Isso é Ubuntu.
Richard Stengel, in O legado de Mandela
  1. Acreditamos no princípio fundamental da afirmação da igual dignidade de cada Pessoa e de todas as Pessoas. Essa igualdade é absoluta e incondicional, assim como o é o valor da vida. A ninguém, em nenhuma circunstância, lhe pode ser roubada e sempre que esta seja atacada, tal deve ser repudiado sem hesitação. Mas, mais do que isso, o atentado à vida ou a ferida à dignidade humana de qualquer pessoa diz-me respeito, toca-me. Por isso, somos chamados à ação para defender a vida e promover e restaurar a dignidade humana. Somos braços da mesma árvore.

  2. Reconhecemos a diversidade humana como um dom. Acreditamos que a riqueza criativa que nos é proporcionada pela diversidade étnica, cultural, política ou religiosa constitui uma força que nos deve unir. Mas, em simultâneo, nunca esquecemos que partilhamos uma mesma natureza, que se sobrepõe a qualquer diferença. Acreditamos na unidade na diversidade. Somos braços da mesma árvore.

Duas jovens participantes Ubuntu

Não me falem de portugueses ou americanos. Falem-me do João e da Teresa, da Susan e da Mary.

Há portugueses pobres e portugueses ricos; portugueses que não sabem ler e portugueses de cultura; portugueses exploradores e portugueses explorados, portugueses cuja vida na América é uma miséria e portugueses que só na América encontram dignidade. Há americanos obtusos e americanos compreensivos, americanos que exploram o português e americanos que o ajudam, americanos que odeiam o português e americanos que o admiram, americanos estúpidos e americanos inteligentes. Não concluam, portanto, o que são os portugueses e o que são os americanos. Falem-me do João e da Teresa, da Susan e da Mary...
Pedro D’Orey da Cunha, Entre dois mundos
  1. Temos presente o perigo de criar linhas que separam, categorias que nos arrumam ou dos estereótipos que nos habitam. Evitamos categorizar qualquer pessoa numa “história única”, consoante o grupo em que a colocamos. Queremos estar sempre abertos à riqueza de cada templo humano. Não me falem de portugueses ou de americanos. Falem-me do João e da Teresa, da Susan e da Mary.

  2. Recusamos qualquer expressão de maniqueísmo, que rotule grandes grupos humanos, catalogando uns como “bons” e outros como “maus”. Qualquer generalização de uma qualidade ou defeito, associando-a a uma identidade coletiva, está errada. Não me falem de portugueses ou de americanos. Falem-me do João e da Teresa, da Susan e da Mary.

  3. Acreditamos que cada pessoa é simultaneamente pertença e autonomia. Somos de pertenças múltiplas e temos uma autonomia em construção. É desse cruzamento que se faz a nossa individualidade, ainda que dentro de uma comunidade. Não me falem de portugueses ou de americanos. Falem-me do João e da Teresa, da Susan e da Mary.

A linha que separa o bem do mal atravessa o coração de cada pessoa.

Aos poucos, tornou-se claro para mim que a linha que separa o bem do mal não passa entre nações, nem entre classes, nem mesmo entre partidos políticos, mas atravessa o coração de cada ser humano. E em cada coração humano essa linha desloca-se. Dentro de nós, muda ao longo dos anos. E mesmo em corações oprimidos pelo mal haverá sempre um sinal de bem. E mesmo no melhor de todos os corações permanecerá um canto de mal.
Aleksandr Soljenitsine, in O Arquipélago Gulag
  1. Sustentamos que quaisquer perceções que congelem no tempo o carácter de uma pessoa, mesmo a partir de algo errado que tenha feito, nos podem induzir em erro. Somos seres em evolução constante e nenhum de nós perde a capacidade de deixar florescer a bondade dentro de si. Nem nenhum de nós deixa de correr o risco de errar. A linha que separa o bem do mal atravessa o coração de cada pessoa.

  2. Reconhecemos a complexidade e temos dúvidas. Sabemos que, tantas vezes, as coisas não são o que parecem e que a verdade raramente é só uma. Por isso, devemos ser lentos a julgar e ainda mais lentos a condenar definitivamente. Procuramos a compreensão mais completa possível e nunca esquecemos que somos feitos de luz e de sombra. A linha que separa o bem do mal atravessa o coração de cada pessoa.

Não queremos ser julgados pela cor da nossa pele, mas pelo nosso carácter.

Eu tenho um sonho: que um dia os meus quatro filhos vivam numa nação onde não sejam julgados pela cor da sua pele, mas pelo seu carácter.
Martin Luther King
  1. Acreditamos que ninguém deve ser julgado, nem ver os seus direitos e deveres diminuídos ou abolidos, por pertencer a qualquer grupo étnico, político, religioso ou cultural. Nenhuma diferença nos pode diminuir. Não queremos ser julgados pela cor da nossa pele, mas pelo nosso carácter.

  2. Acreditamos no princípio da equidade. Reconhecemos que existem desigualdades estruturais e individuais que têm de ser tidas em conta e erradicadas, criando todas as condições necessárias a uma verdadeira e completa igualdade de oportunidades para todos. Não queremos ser julgados pela cor da nossa pele, mas pelo nosso carácter.

  3. Acreditamos que a liberdade de cada pessoa é um direito sagrado. Sustentamos que nenhuma adversidade deve roubar a quem seja a consciência de que pode ser “senhor do seu destino / capitão da sua alma”. Mas com essa liberdade vem a responsabilidade por aquilo que fazemos e por aquilo que ignoramos. Não queremos ser julgados pela cor da nossa pele, mas pelo nosso carácter.

Precisamos de aprender a amar.

Ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pelo seu passado ou pela sua religião. As pessoas aprendem a odiar e, se conseguem aprender a odiar, também podem aprender a amar, pois o amor é um sentimento mais natural ao coração humano do que o seu contrário.
Nelson Mandela
  1. Recusamos qualquer expressão de ódio e de violência como motores de transformação social. O ódio desumaniza-nos e leva-nos a ver o “outro” como um “inimigo”, e, por isso, como menos humano. Não acreditamos que da violência possa nascer algum bem duradouro. Só a não-violência ativa, movida pelo amor e pelo respeito, mesmo pelos nossos adversários, pode gerar mudanças justas e sustentáveis. Precisamos de aprender a amar.

  2. Não ignoramos as feridas deixadas pelo legado de tantas ofensas à dignidade humana que o mundo conheceu. Da escravatura ao antissemitismo, da perseguição por motivos políticos, religiosos ou ideológicos ao racismo, da violência de género à discriminação em razão da orientação sexual, entre outras, carregamos uma herança pesada que, em alguns casos, continua muito presente entre nós. Precisamos de ter consciência de que há ainda um longo caminho a percorrer. Só quando descobrirmos em cada pessoa um irmão ou uma irmã, igual em dignidade e parceiro na construção de um futuro comum, conseguiremos crescer em humanidade. Precisamos de aprender a amar.

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